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Jornalismo: entre web e abutres

Web Summit dá destaque a pautas acerca da confiança e monetização do jornalismo como pilar importante para a democracia

Thaís Monteiro
1 de novembro de 2021 - 8h00

O marketing — tradicional, digital e de influência — e as empresas de mídia estão, também, no centro dos debates do Web Summit. Há uma série de players de ambos os setores que debatem o papel dos CMOs e sua evolução como especialistas em dados e a necessidade de estarem alinhados à jornada do consumidor. No campo do jornalismo, veículos como Reuters, The Washington Post, The Times, Financial Times, Vice, Teen Vogue e outros constam da agenda de palestrantes. Serão abordados temas como a desconfiança do público em relação às notícias, como salvar o jornalismo de alta qualidade, inovar em storytelling, atrelar tecnologia ao negócio e ajustar o papel desse pilar democrático que é a imprensa na sociedade moderna e digital.

(Crédito: Brian A. Jackson/Shutterstock)

Essas questões ganham mais relevância conforme uma série de micro e macro movimentos contra a mídia ocorrem. Veículos pelo mundo têm sofrido com a desvalorização das mídias tradicionais, a ascensão e patrocínio da produção de conteúdo falso e queda de assinaturas. Contudo, preocupações ainda maiores estão no horizonte. Reportagem da revista de Boston The Atlantic deste mês aborda o declínio da mídia tradicional americana e aponta que o fundo Alden Global, chamado pela publicação de “fundo abutre”, adquiriu títulos e, subsequentemente, esvaziou redações de jornais locais americanos, como Chicago Tribune, NY Daily News, Baltimore Sun e Denver Post. Títulos que, até então, eram fiscais locais de má conduta corporativa e pública. O fundo adquiriu 200 veículos desse porte nos EUA. Na China, quatro publicações que denunciaram crimes corporativos foram vetadas da lista de veículos com reprodução liberada pelo governo chinês. Pesquisa da consultoria Pew aponta que, nas últimas duas décadas, a circulação de jornais locais, que garantem o epíteto de pilar democrático da sociedade em que circula, caiu 50%.

Fundos abutres gostam de investir em dívidas impagáveis, em busca do dinheiro fácil. Esse movimento, na avaliação do sócio-diretor da consultoria Midia Mundo, Eduardo Tessler, não deve ocorrer no País. “No Brasil, o mais parecido que aconteceu foi o ‘arrendamento’ das marcas Jornal do Brasil e Gazeta Mercantil para um empresário do ramo de estaleiros (Nelson Tanure), no início do século e, mais recentemente, a operação que fez a família Civita entregar o comando da Editora Abril. As duas negociações foram tentativas de rentabilizar negócios que ainda poderiam trazer resultados, mas não tinham como objetivo fechar empresas para abrir caminho a outras. A situação das empresas de mídia no Brasil, salvo poucas gigantes, é tão instável que pode ser mais barato investir em concorrente mais ágil, com espírito de startup, do que comprar para matar”, contextualiza.

O maior obstáculo dos veículos de mídia é a adaptação à digitalização devido a valores estagnados e conservadores e métodos de análise de audiência ultrapassados, diz Tessler. Outra crise, intensificada pela pandemia e suas consequências econômicas, é a dispensa de talentos, o que tem custo na qualidade. “A reinvenção depende de vontade empresarial, investimento, planejamento estratégico e uma pitada de ousadia. Só que, quanto mais tempo uma empresa leva para decidir pela reinvenção, mais difícil fica. O timing da transição digital já passou. Agora, é preciso correr contra o tempo perdido”, afirma.

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