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De olho no futuro do varejo, FGV planeja incluir Web Summit em seu circuito

Pesquisadores da escola de negócios acompanharam a edição deste ano do evento para acompanhar as evoluções que a tecnologia aponta para a área

Roseani Rocha
7 de novembro de 2019 - 5h00

Para o professor Henrique Campos Junior, a inovação tem duas pontas importantes (Crédito: Divulgação)

Uma das escolas de negócio mais renomadas do Brasil, a Fundação Getúlio Vargas trouxe ao Web Summit alguns de seus professores da área de varejo. Afinal, se esse perfil de instituição vive pregando a necessidade de atualização constante neste ambiente de negócios em transformação acelerada, a lição cabe também a elas próprias. Só que, no entanto, não aprendem sozinhos: a GV costuma trazer grupos de brasileiros para visitarem grandes eventos globais com a curadoria feita por seus especialistas. Um deles, Henrique Campos Junior, professor de marketing, coordenador de pós-graduação do MBA da EAESP (Escola de Administração de São Paulo) e pesquisador do Centro de Varejo, falou ao Meio & Mensagem sobre suas percepções da Web Summit em relação a outros eventos, alguns dos conteúdos mais interessantes que já viu e comentou os desafios de transmitir a cultura de inovação em um mercado com uma economia combalida, como a brasileira.

 

Meio & Mensagem – O que uma escola como a FGV veio explorar no Web Summit?

Henrique Campos Junior – Há alguns anos, nós temos uma cobertura boa da NRF (a feira de varejo promovida pela National Retail Federation, dos Estados Unidos). Ano passado, levamos 125 pessoas e este ano já temos 70. E estudamos não somente varejo clássico como também as evoluções das formas de consumo. Aqui no Web Summit, estamos olhando muito para como o ambiente de provimento de consumo vai mudar no futuro. Agora há pouco, eu estava numa palestra de um rapaz da startup Manna, que tem entrega de comida via drone. Isso é algo que vai impactar esse varejo de comida pronta. E está dentro da nossa esfera de interesse. E nos últimos cinco anos temos levado grupos de brasileiros para a NRF porque é a principal feira de varejo do mundo e o serviço de curadoria que fazemos também tem sido percebido como algo de valor. Porque esse ambiente sufocante, com várias coisas ao mesmo tempo, várias palestras e a sensação de não conseguir fazer tudo que queria acaba acontecendo com todos os participantes de todas as grandes feiras de negócios, nesse formato que elas têm sido feitas atualmente.

M&M – E como vocês ajudam exatamente?

Campos Junior – Indicamos como elas deveriam organizar sua agenda e navegar na feira. Palestras de 15 minutos com quatro pessoas, por exemplo, esquece. Vai ser difícil capturar algo dali. São investimentos altos; uma pessoa que venha para cá não gastaria menos que R$ 25 mil. Gastar isso e sentir que não aproveitou de forma clara e estruturada o evento é ruim. Nós montamos uma estrutura de acolhimento que faz as pessoas aproveitarem melhor. É um grupo aberto de pessoas, do varejo principalmente, mas até as que não são ligadas a ele. E algo que torna atrativa nossa oferta é que não temos a parte de hospitalidade. A pessoa escolhe seu hotel e passagem aérea, até porque a GV não é uma agência de turismo. Temos um aplicativo e nossa base de comunicação com as pessoas é o app. Desde o ano passado começamos a fazer um roteiro das feiras de negócios mais interessantes e o Web Summit é a nossa próxima incursão nesse sentido. E o SXSW é possível também, mas sempre fazendo uma conexão maior com o varejo que é o nosso ponto principal.

M&M – Você estava, aliás, vendo há pouco uma palestra sobre um novo modelo de varejo, o que achou?

Campos Junior – Achei demais esse modelo da StockX. O Josh Luber (cofundador da empresa) montou um gradiente onde de um lado ele colocou a Amazon, com oferta infinita, produtos que quem quiser comprar pode comprar, e do outro lado, colocou o e-Bay, que tem aquela peça única – a camiseta do time de basquete de 1979, vestida e autografada pelo jogador tal, que não existe um valor de mercado para isso, porque é um item único. E existe um conjunto de coisas que estão no meio desse caminho, que são séries relativamente limitadas ou ofertas restritas de produtos. Isso tem um conjunto de ofertantes e um de demandantes, portanto, poderia ter um preço de mercado que encontraria isso. Não é o leilão de uma peça única, porque não funcionaria tão bem, mas um conjunto de pessoas que têm determinada peça, outro de pessoas que querem aquilo e elas podem se encontrar no espaço deles. Mas o que achei bacana também é que ele expandiu esse modelo para ser um parceiro de distribuição de certas marcas, então, tem hoje, dentro do modelo criado por ele, o formato do IPO, “initial product offer”. A Nike lança um tênis e vê o valor de mercado que será atribuído pelas pessoas ao produto, dentro da plataforma. E é um espaço interessante principalmente para produtos que tenham essa característica, uma oferta limitada, algo que as pessoas estão buscando hoje em dia, um pouco mais de personalização. E vira uma plataforma tanto para ofertas iniciais de produtos quanto para um “aftermarket” disso, um espaço de troca e retroca. Aquele teu item passa a ter liquidez maior e mais facilidade para troca.

Josh Luber, da StockX, expõe seu modelo de negócio no palco Panda Conference

M&M – E com base no que viu até esse momento do Web Summit, o que destacaria de diferença em relação à NRF?

Campos Junior – Primeiro, este é um evento que tem conteúdo, mas a entrega desse conteúdo tem um formato bem diferente. As palestras daqui são de 20 minutos e na NRF, de 30, 40 minutos. Então, você sente essa aceleração, o que causa um pouquinho mais de angústia no participante. Também acho que ele é um evento propositalmente desestruturado e com um público mais jovem. Esse desestruturado talvez um pouco também pelo gigantismo do evento. Uma coisa que me incomodou um pouquinho foi o tom de catequese em algumas palestras, “vocês são o futuro, o futuro nasce aqui”, que do ponto de vista de quem organiza o evento é ótimo, vira uma assinatura e traz mais gente, mas… primeiro, não é tão verdade assim e, segundo, vamos lá! O indivíduo que está lá no palco tem 20 minutos para se apresentar, então mostre suas credenciais. Não precisa ficar fazendo evangelização, mostre o que você está fazendo. Isso é algo que me incomodou um pouco, mas também me parece que é a tônica dessas novas gerações que estão tocando as startups.

M&M – O que você mais gostou, a propósito na presença das startups aqui?

Campos Junior – Achei bacana eles terem estruturas físicas aqui com pequenas áreas para cada um contar a história da sua empresa. Passei por alguns e há ideias legais e ideias em diferentes estágios de maturidade. E um pessoal muito bacana querendo fazer negócio. Inclusive, nos procurando pelo aplicativo.

M&M – É difícil transmitir uma cultura de inovação num mercado como o brasileiro?

Campos Junior – Estamos num período de crise mais resistente, desde 2014, 2015. Esse cenário abre espaço primeiro para oportunidades, porque em crise você tem que fazer mais e melhor com o que tem e isso puxa inovação, certamente. Porque o dinheiro vai minguando na crise, então, é importante tentar fazer mais e melhor com aquilo que se tem. Mas também não vamos ficar em crise para sempre. Devemos sair desse ciclo e voltar a acelerar o crescimento num período de tempo breve. E aí inovação volta a ser importante. É importante nas duas pontas, aliás. Tanto em momentos de muito crescimento quanto no de crise mais acentuada. O que vemos é um pouco de resistência até do próprio empresário brasileiro em fazer esse movimento. Lá na escola já existe o contrário disso. Principalmente os alunos da graduação têm um ímpeto empreendedor enorme. Às vezes, falo até para tomarem cuidado, porque ao mesmo tempo que têm o ímpeto empreendedor, às vezes, já querem os louros da grande corporação. No empreendedor não tem o glamour da grande corporação. Você vai ter instabilidade e turbulência o tempo todo, mudança o tempo todo e liberdade. Já na grande corporação você tem muito menos liberdade, muito mais estrutura. Tem a possibilidade de fazer um empreendedorismo intraorganizacional. No Brasil, essas instabilidades constantes no nosso ambiente de negócio até nos fazem ser um pouquinho mais inovadores do que a média. Faltam os recursos. Então, procurar recursos, sejam eles capital intelectual ou financeiro – aqui no evento tem espaço para isso, vemos as competições de pitch – isso torna esse evento muito legal também para o empreendedor.

 

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