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O povo contra as big techs

Cenários projetados por estrategista da Shell indicam que o equilíbrio no controle dos dados, entre governos, empresas e pessoas, decidirá futuro da sociedade

Jonas Furtado
6 de novembro de 2019 - 4h58

Ed Daniels, líder global de estratégia da Shell, e Neanda Salvaterra, do The Wall Street Journal

Ao subir no palco da conferência Future Societies em uma das primeiras palestras da manhã da terça-feira 5 de novembro, primeiro dia de programação cheia do Web Summit 2019, o líder global de estratégias da Shell, Ed Daniels se intitula “um cara pacato, de uma pequena vila no País do Gales”, que fez engenharia e conseguiu um emprego numa das companhias líderes globais do setor de energia – algo entre a modéstia e uma autoafirmação de sucesso na vida por meio de trabalho duro, talvez com a intenção de desassociar qualquer compromisso da equipe sob sua orientação com uma previsão exata de como será o amanhã.

“Somos estrategistas e estudiosos. Não prevemos o futuro, mas projetamos uma série de possíveis cenários”, alerta. “Não se trata do que acontecerá, mas do que pode acontecer”. Ressalva feita, o trabalho de Ed e seu time, com muita pesquisa, entrevistas e o reforço de ferramentas de inteligência artificial, é abastecer a empresa com informações que direcionem os investimentos para os próximos anos.

Ao descrever os três cenários mais prováveis para a próxima década, o executivo da Shell ressaltou que a evolução do uso da tecnologia e dos dados por governos, empresas (mercado) e pessoas, as forças primárias dessa equação, determinará como será o nosso futuro digital – com impacto sobre questões fundamentais, como a privacidade, segurança, democracia, prosperidade e desigualdade. Os próximos capítulo no equilíbrio dessa dinâmica definirão as características de nossa sociedade em 2030.

Confira a seguir um resumo dos três cenários apresentados. Aviso de spoiler: em comum, daqui há dez anos, no máximo, todos convergem para que as pessoas exijam uma intervenção do governo, contra o excesso de poder concentrado, ao longo da próxima década, nas mãos das grandes empresas de tecnologia.

CENÁRIO 1 = ILHAS DIGITAIS
“É um cenário em que as forças governamentais e públicas estão fragmentadas, onde o individualismo e a autonomia se desenvolvem como valores primários da sociedade. As pessoas começarão a resistir a ceder o uso de seus dados pessoais para que as empresas possam lucrar. O foco na privacidade e o individualismo joga contra a globalização. Identidade local, valores familiares e nacionalismo étnico ganham força. Como resultado, o populismo continuará aumentando. Por volta de 2030, os governos terão que atuar para garantir a privacidade individual e forçarão as companhias de tecnologias a cederem os dados para uso oficial. Países levantarão firewalls e fecharão suas fronteiras digitais. Nesse cenário, a cooperação entre as forças é mínima (…). Esse futuro é o menos atrativo economicamente (…), um mundo no qual o avanço da tecnologia desacelera dramaticamente, à medida em que o aumento da influência da tradição valorizará as decisões tomadas por seres humanos em vez de algoritmos (…) Para evitar esse mundo digital fragmentado, as empresas de tecnologia precisam encontrar formas de empoderar novamente os indivíduos, concedendo de volta a eles o controle sobre suas informações pessoais.”

CENÁRIO 2: PLATAFORMAS ABERTAS
“Este é um cenário completamente diferente do anterior. Nesse caso, haverá ainda mais conexão digital global e internacionalismo. Será moldado a partir do prevalecimento das forças de mercado e das pessoas. A digitalização aumentará rapidamente na década de 2020, graças à conveniência desfrutada pelas pessoas que, por conta do crescimento da personalização de produtos e serviços, passam a delegar cada vez mais suas decisões para algoritmos (…) A arquitetura digital internacional se fortalece, mas, como a interação social se torna ainda mais digital, estruturas tradicionais da sociedade serão enfraquecidas. O público passará a ver as empresas de tecnologia como muito poderosas e próximas dos políticos. Perto de 2030, haverá uma reviravolta. Os governos finalmente terão que ampliar a regulamentação do setor. As companhias de tecnologias serão obrigadas a se reestruturar e se adaptar a modelos de negócio mais abertos. Este cenário é como uma estrada acidentada mas ainda rumo a um mundo mais próspero. O desafio será encontrar maneira para assegurar que ninguém fique para trás e todos tenham seu papel nessa nova sociedade.”

CENÁRIO 3: OBEDEÇA E PROSPERE
“Neste cenário, a estabilidade e a coesão social e a conveniência estão acima de tudo. No começo da década de 2020, a tecnologia e os avanços digitais continuam a impulsionar o crescimento econômico. No entanto, há um aumento da preocupação com ataques cibernéticos (…) As pessoas passam a esperar que o governo intervenha no mundo digital. Com o tempo, todos os sistemas e infraestruturas importantes serão inteligentemente otimizadas e controladas pelos governos, por meio do uso de informações públicas e privadas. Por volta de 2030, os governos começam a trabalhar próximos das empresas de tecnologia e, gradualmente, tentarão controlar a inovação. Ao mesmo tempo, o aumento da vigilância reduz os níveis de crimes, e o uso pessoal de dados acarreta na melhora de estruturas sociais, como serviços de saúde. As pessoas são recompensadas e punidas pela maneira como vivem suas vidas. É um mundo no qual as pessoas estarão um pouco mais ricas e seguras do que hoje, mas geralmente menos livres.”

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