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Edward Snowden: “GDPR não é a solução”

Diretamente da Rússia, onde está exilado desde 2013, o ex-analista de sistemas da CIA abriu o Web Summit com críticas ao governo e a gigantes de tecnologia

Isabella Lessa
4 de novembro de 2019 - 18h33

Edward Snowden na abertura do Web Summit 2019 (Crédito: Isabella Lessa)

Um atraso de 15 minutos e segundos de telão preto precederam a aparição de Edward Snowden, conferindo ainda mais suspense a uma plateia já ansiosa para ver, ao vivo e em cores – mesmo que por videoconferência –, o analista de sistemas por trás do vazamento do sistema de vigilância norte-americana em 2013.

Exilado na Rússia desde então, Snowden respondeu às perguntas de James Ball, editor global do Bureau of Investigative Journalism, dentro de um breve período de meia hora ao longo da qual o silêncio no pavilhão principal do Web Summit foi sepulcral. Quebrado, ocasionalmente, por salvas de palmas estrondosas, mesmo que o americano tenha trazido, em parte de suas falas, provocações às startups e empresas presentes no evento.

Para começar, Snowden traçou um breve perfil de si mesmo, o seu eu antes de decidir trazer à tona os programas de vigilância dos EUA, enquanto ainda era administrador de sistemas da Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA): nunca fumou, nunca bebeu, seguiu todas as regras, acreditou na importância das regras e no juramento à bandeira. “Basicamente um cara sem graça”. A virada de chave na cabeça do norte-americano ocorreu quando percebeu que o Formulário Padrão 312, acordo para não revelar informações secretas e o qual teve de assinar, conspira contra seu próprio conteúdo.

Segundo ele, a tecnologia permitiu que a vigilância norte-americana deixasse de se ater somente aos suspeitos para investigar todas as pessoas, inclusive as que não eram suspeitas de crimes. Com isso, tornou-se comum um processo de prospecção, de coleta de dados que pudessem ser úteis caso o indivíduo viesse a cometer alguma irregularidade. Nenhum dos três poderes se interessou em agir, porque era um sistema que os beneficiava, além do próprio fato de dizer que o sistema havia sido redefinido era comprometedor. “Ainda estamos lidando com isso. O que fazer com as instituições, que deveriam ser as partes mais confiáveis e que, na verdade, são as menos confiáveis?”, questionou.

Nesse contexto, a tecnologia deixa de ser a amplificação do poder do indivíduo: serve como ferramenta de abuso tanto por parte do governo quanto por parte das grandes empresas de tecnologia, como Google, Facebook e Amazon. Na visão de Snowden, essas duas partes tornam-se o lado esquerdo e direito de um mesmo corpo de concentração de poder, cuja função é controlar ou, ao menos, influenciar as pessoas.”Vocês não são clientes do Facebook. São o produto”, alfinetou.

GDPR, erro de conceito
Seguindo este raciocínio, Snowden considera que a GDPR já começa errada no nome, pois desloca o foco do real problema. Para ele, “lei geral de proteção de dados” parte do pressuposto de que a coleta de dados é correta, de que não há nada de errado em espionar as pessoas. Portanto, é uma iniciativa que dá um falso senso de segurança, algo muito subestimado pelas empresas.

A solução, então, é considerar os problemas reais: o público conectado não tem mais controle sobre as informações sobre si mesmos, já que basta o celular estar ligado para rastrear e armazenar dados sobre onde a pessoa esteve, o que fez, o que consumiu. “Dado não é abstrato. Dados são sobre pessoas. Pessoas são exploradas. Você está sendo manipulado. Todos os provedores de serviço vão agir de acordo com seus próprios interesses. Estamos todos vulneráveis até redefinirmos essa lógica”, alertou.

Daqui dez anos, Snowden prevê que toda a comunicação da internet seja criptografada. Desde 2013, ele diz ter havido muito avanço nesse sentido. E é algo importante porque protege a informação, impedindo que possa ser utilizada de qualquer maneira. Segundo ele, o governo está alarmado com a possibilidade de perder a vigilância de massa.

Por fim, deu um recado à plateia: “Em vez de pedir às pessoas para confiarem no seu serviço, mostrem por que não têm de confiar em você. Os dados não estão no seu controle. As jurisdições são diferentes em cada país e a lei não é a única coisa que pode te proteger”.

Depois da sessão, a organização do Web Summit divulgou uma entrevista pré-gravada com Snowden, que seria exibida no Central Stage caso houvesse problemas técnicos na transmissão. No material, ele comenta sobre a ascensão de hackeamento por parte do Estado para garantir o acesso a informações mesmo que estas sejam criptografadas.

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